Em três segundos passou de calma a gritar comigo pelas ruas de Chiang Mai. A prima dela explicou-me porquê.
Em resumo
Um finlandês tornou-se cliente habitual de uma rapariga de massagens em Pattaya, e depois de uma bela viagem a Koh Chang e dois anos de contacto pelo Line durante a pandemia, uma noite de copos em Chiang Mai acabou em gritos, mala feita e uma explicação reveladora meses depois.
Sou finlandês, tenho 56 anos, divorciado há bastante tempo, e conheci uma rapariga de massagens chamada Joy numa viagem anterior a Pattaya, um sítio pequeno a umas ruas da praia que um amigo me tinha recomendado. Com o tempo tornei-me cliente habitual, voltando sempre ao mesmo sítio sempre que estava na cidade, pedindo sempre que fosse ela a atender-me se tivesse vaga na agenda nessa tarde.
Pouco a pouco, entre sessão e sessão, começámos a falar de mais coisas, das nossas vidas, de onde éramos, da família dela em Chonburi e da minha em Helsínquia, até que um dia decidimos fazer uma viagem de cinco dias juntos a Koh Chang, algo que na altura me pareceu um passo bastante grande para o que até então tinha sido uma relação de cliente e massagista. Foi ótimo, sinceramente, muito melhor do que esperava.
Ela insistiu em alugar uma scooter para nos deslocarmos pela ilha, algo que não era propriamente a minha zona de conforto, sobretudo nas curvas mais fechadas das estradas de montanha que sobem para o lado oeste, com o motor a queixar-se em cada subida e eu agarrado ao banco com mais força do que gostaria de admitir. Mas de alguma forma conseguimos, parando em praias quase vazias que só se viam a partir da estrada, comendo fruta cortada que comprávamos em bancas ambulantes, e acabei por gostar da liberdade de percorrer a ilha ao nosso ritmo, parando onde nos apetecesse sem depender de mais ninguém.
Também cuidou muito bem de mim quando apanhei uma infeção estomacal a meio da viagem, um daqueles episódios que nos deixam estendidos sem forças para nada. Saiu sozinha à procura de comida simples, sopa de arroz e água, para podermos ficar a descansar e ver um filme no quarto com o ar condicionado no máximo, sem se queixar uma única vez por termos de mudar os planos para esse dia. Bons momentos, daqueles que se recordam com carinho depois, mesmo sabendo como tudo acabaria mais tarde.
Isso foi em fevereiro de 2020, e todos sabemos o que aconteceu a seguir.
Ela ficou presa em casa sem ninguém com quem falar durante os piores meses, com os salões de massagem fechados durante longos períodos e sem rendimento fixo, e eu também estava a trabalhar a partir de casa, fechado em Helsínquia com subitamente muito tempo livre, por isso mantivemos o contacto habitual pelo Line durante toda a pandemia. Mensagens quase diárias, fotos do que cada uma estava a cozinhar, uma ou outra videochamada quando os horários coincidiam. Sinceramente, foi bom ter alguém com quem conversar durante aquele período tão estranho e isolado para toda a gente, sem saber muito bem quando se ia poder voltar a viajar.
Quando as coisas começaram a reabrir em outubro de 2022, planeámos uma viagem a Chiang Mai e às aldeias das colinas, algo bastante diferente do que costumávamos fazer juntos até então. Contratámos um condutor local para nos levar pelas estradas estreitas e cheias de curvas que sobem até às aldeias das montanhas. Fascinante ver os socalcos de cultivo a subir pelas encostas, uma paisagem que não se parecia nada com o que conhecíamos da costa, com neblina baixa a cobrir os vales de manhã e crianças a acenar das portas das casas de madeira. Ainda assim, depois de um dia inteiro a percorrer aquilo, exaustos e com as pernas dormentes de tantas horas na carrinha, decidimos voltar a Chiang Mai mais cedo do que previsto.
Encontrámos um salão de massagens perto do hotel, um sítio pequeno e acolhedor que a Joy achou muito engraçado por ser tão parecido com o dela, jantámos num restaurante ao lado bastante decente, tomámos uns copos com as raparigas do sítio que se sentaram um pouco connosco, e depois a Joy quis ir dançar, com aquela energia repentina que lhe dava em algumas noites.
Nessa altura já tinha bebido alguns copos, whisky com soda que ia pedindo cada vez mais, mas parecia estar bem, animada e bem disposta, a rir-se das próprias piadas mais do que o habitual. Encontrámos uma discoteca ali perto, mas estava bastante calma nessa noite e, em vez de um DJ, tinha subido ao palco uma banda acústica a tocar versões lentas de canções conhecidas, o que não era exatamente o que ela tinha em mente para essa noite. Decidimos ir embora à procura de outro sítio com mais ambiente.
Ao sairmos disse-me para voltarmos ao salão de massagens. Eu disse que por mim tudo bem, mas que tinha fome e preferia comer algo primeiro antes de decidir mais nada.
Passou de estar perfeitamente bem a completamente descontrolada em cerca de três segundos, sem qualquer transição percetível entre os dois estados, como se se tivesse ligado um interruptor algures dentro dela. Começou a gritar, a abanar os braços de um lado para o outro, chamando-me o número um dos mentirosos vezes sem conta, cada vez mais alto e com as pessoas na rua a começar a olhar, sem que nada do que eu dissesse parecesse acalmá-la minimamente.
Mantive a calma, não disse nada, e concentrei-me simplesmente em chegar de volta ao hotel o mais depressa possível enquanto ela gritava comigo durante todo o caminho pelas ruas de Chiang Mai, com as pessoas a virarem-se para olhar à nossa passagem.
Já no hotel fez a mala à pressa, atirando a roupa lá para dentro sem sequer a dobrar, exigiu dinheiro, que no final se revelou menos do que eu já tinha pensado dar-lhe de qualquer forma antes de tudo aquilo começar, e saiu ainda a gritar pelo corredor, batendo com a porta com força suficiente para ecoar por todo o piso. Tranquei a porta e não senti nada além de um alívio enorme, como se me tivessem tirado um peso dos ombros que nem sequer sabia bem que estava a carregar.
Na manhã seguinte escrevi-lhe a perguntar se estava bem. Sem resposta. Escrevi-lhe outra vez já no aeroporto, à espera do voo. Continuou sem resposta. Mesmo antes de embarcar chegou-me uma mensagem dela a dizer que já estava de volta a Pattaya. Não faço ideia de como conseguiu chegar tão depressa, mas apaguei a mensagem sem responder e entrei no avião.
Uns dias depois, a caminhar por Soi Diana, vi-a numa scooter a vir direto na minha direção. Puxei o boné para baixo até às sobrancelhas e preparei-me para o pior. Passou mesmo ao meu lado sem sequer olhar para mim.
Conhecia a prima dela por outro lado, de forma completamente independente, alguém que tinha conhecido por acaso uns meses antes em Pattaya, e encontrei-me com ela várias vezes durante essa mesma viagem sem que o assunto alguma vez surgisse na conversa. Numa visita posterior, já com mais confiança entre nós, perguntei diretamente à prima se sabia o que tinha acontecido em Chiang Mai naquela noite.
Contou-me a versão que a Joy lhe tinha dado, que não se parecia em nada com o que realmente tinha acontecido essa noite. Não me dei ao trabalho de corrigir tudo, apenas mencionei de passagem que a Joy tinha bebido bastante essa noite.
A cara da prima mudou instantaneamente, passando da surpresa para algo parecido com vergonha. Pediu desculpa várias vezes e disse-me que a Joy fica mal quando bebe, que fica completamente louca e perde a cabeça por qualquer coisa, e que ela própria já não sai com ela quando está a beber, por precaução, depois de o ter vivido em primeira mão mais do que uma vez.
Da última vez que isso aconteceu, contou-me, a Joy tentou arranjar briga com outras raparigas tailandesas na Walking Street sem motivo aparente, a gritar com elas no meio da rua até que dois seguranças tiveram de intervir para as separar.
Isso explicava tudo o que tinha acontecido naquela noite em Chiang Mai, cada detalhe a encaixar-se de repente como as peças de um puzzle que até então não fazia sentido nenhum. Continuo amigo da prima, que agora me leva na scooter aos cantos mais tranquilos de Pratumnak Hill e Khao Talo sempre que estou em Pattaya, longe do barulho das ruas principais. Um bom desfecho, sinceramente, para o que na altura tinha sido uma noite no mínimo memorável.