Dei-lhe 400.000 baht e dois anos da minha vida. Um dia foi para um templo e nunca mais falou comigo.
Em resumo
Um canadiano de 51 anos conta como passou de uma relação tensa em Pattaya a apoiar a Lek durante dois anos enquanto ela montava uma banca de comida na aldeia perto de Prakhon Chai, até desaparecer sem explicação depois de um retiro num templo.
Sou canadiano, tenho 51 anos, e a minha primeira viagem a Pattaya foi em fevereiro de 2019. Conheci uma rapariga chamada Om, passámos um bom bocado juntos, e mantivemos contacto quando voltei para casa.
Em outubro voltei durante um mês inteiro e viajámos juntos, primeiro Banguecoque, depois Hua Hin de comboio, e por fim a travessia até Pattaya de barco, um trajeto que soava muito mais romântico no papel do que se revelou na prática.
Soava romântico, sim, no papel, duas pessoas a atravessar o país juntas, mas na realidade discutíamos constantemente por coisas pequenas que se transformavam em algo maior, ela queria dinheiro para isto e para aquilo, um vestido novo, um presente para a mãe, a conta do hotel, e dava muito pouco de si em troca. Aproveitei a viagem o melhor que pude porque gostava mesmo dela apesar do drama constante, convencendo-me de que era só a maneira de ser dela e que se suavizaria com o tempo, mas quando voltei para casa ela ficou fria de repente e começou a ignorar-me sem qualquer explicação, respostas cada vez mais curtas até deixarem de chegar de todo.
Decidi simplesmente que a Om já não merecia mais tempo nem energia da minha parte, ponto final.
Por isso comecei a falar com a colega de quarto dela, a Lek, em vez disso, alguém que tinha conhecido de passagem durante a viagem com a Om mas com quem nunca tinha trocado mais do que umas frases. Uma rapariga mais calada, não tão popular no bar como a Om, com menos clientes habituais e menos vontade de aparentar, mas exatamente o meu tipo, dessas que não chamam a atenção à primeira vista mas crescem a cada conversa que se tem com elas. Demo-nos mesmo bem desde o início, sem a tensão constante que tinha tido com a Om.
Quando a COVID chegou e os bares fecharam de um dia para o outro, as duas raparigas ficaram sem trabalho da noite para o dia, sem qualquer aviso prévio nem indemnização. Ofereci-me para cobrir a renda e a comida das duas enquanto aquilo durasse, sem pensar muito, porque naquele momento parecia a coisa mais normal do mundo ajudar quem se podia. A Lek disse-me, numa daquelas longas videochamadas noturnas que tínhamos quase todos os dias, que estava cansada de Pattaya, cansada do ambiente dos bares e da vida noturna em geral, e que só queria uma vida normal de volta à sua aldeia, perto de Prakhon Chai, no interior do país, longe da costa e dos turistas.
Queria vender comida na aldeia, algo simples, uma banca própria. Por isso comprei-lhe todo o equipamento de que precisava, fogão, mesas, cadeiras, absolutamente tudo, cerca de 50.000 baht ao todo, transferidos aos poucos ao longo de várias semanas.
Ela pôs o negócio a funcionar sozinha, decidindo o menu, os preços, até o nome pintado por cima da banca, e correu bastante bem durante algum tempo, com clientes habituais da aldeia que voltavam quase todos os dias para comer. Depois a COVID chegou também à aldeia, as pessoas deixaram de sair de casa com medo do contágio, e ela teve de fechar a banca indefinidamente sem sequer ter recuperado o que tinha investido. Disse-lhe para não entrar em pânico, que essas coisas aconteciam e que tentaríamos outra vez quando tudo passasse, e continuei a apoiá-la financeiramente durante esses meses de encerramento sem pensar muito nisso nem levar a conta exata do que ia somando.
Falávamos e ríamos no Messenger todos os dias sem exceção durante quase dois anos seguidos, mensagens de voz que ela me mandava enquanto cozinhava, fotografias da aldeia, do céu ao pôr do sol, tolices do dia a dia que na altura me pareciam a melhor parte do meu dia. Tenho o dobro da idade dela, ela tem uns 25 e eu 51, e não sou nenhum ingénuo, sei perfeitamente o que pode significar quando uma rapariga tailandesa jovem diz que te ama, já ouvi histórias suficientes de outros expatriados para não baixar a guarda por completo. Mas também me dizia que me respeitava, com essas palavras exatas mais do que uma vez, e a forma como me tratava no dia a dia confirmava essa parte, pelo menos durante muito, muito tempo.
Nada de histórias de búfalos doentes, nada de emergências repentinas de duas em duas semanas como tinha ouvido outros expatriados descreverem sobre as próprias namoradas, só gratidão genuína e conversas normais entre duas pessoas que se davam bem e gostavam mesmo da companhia uma da outra, pelo menos era isso que eu via do meu lado.
Depois, em fevereiro de 2022, quase dois anos depois daquelas primeiras videochamadas durante o confinamento, disse-me que ia para um templo durante duas semanas fazer um retiro, sem telemóveis permitidos lá dentro, algo relacionado com a mãe dela e uma promessa religiosa que nunca cheguei a perceber bem. Achei tudo bem, entendi perfeitamente, há mulheres tailandesas que fazem retiros assim de vez em quando e nada me pareceu fora do normal. Passaram as duas semanas exatas e liguei no dia certo. Não atendeu. Tentei no dia seguinte, e no outro, e continuei a tentar durante mais um mês inteiro, chamadas, mensagens de voz, mensagens de texto. Nada de nada, nem uma única resposta.
Ficou em silêncio no Facebook, ignorava as minhas mensagens nos dias em que aparecia online, depois removeu-me como amigo, e acabou por me bloquear por completo em todo o lado.
Perguntei à irmã dela por mensagem privada, a um par de amigas suas que ainda tinha adicionadas desde a época de Pattaya, ninguém me quis contar absolutamente nada, todos com a mesma evasiva educada, "não sei, pergunta-lhe diretamente", como se isso não fosse precisamente o que eu andava a tentar há semanas sem sucesso. Por fim vi uma fotografia dela no Facebook da irmã, a sorrir no que parecia ser uma celebração de família, por isso pelo menos soube que estava viva, de saúde, e em casa na aldeia. Tinha simplesmente decidido, nalgum momento que nunca consegui identificar, que eu já não existia para ela, sem qualquer explicação.
Não choro pelo dinheiro, sinceramente, cerca de 400.000 baht ao todo entre tudo o que lhe dei ao longo desses anos, o equipamento do negócio, a renda durante os encerramentos, ajudas pontuais aqui e ali que nunca me pareceram pedir muito. De facto estava pronto para lhe comprar uma casa própria, algo pequeno mas dela, para que tivesse um sítio longe da família se fosse isso que queria no fundo.
Restavam-me uns bons anos de viagens pela frente, com saúde e com vontade, talvez dez ou quinze se tudo corresse bem, e queria passá-los com ela, essa era sinceramente toda a minha ideia, nada mais complicado do que isso, sem nenhum grande plano secreto por trás. O que me destrói não é o dinheiro mas o silêncio total, o nada absoluto depois de tanto tempo partilhado. Se tivesse encontrado outra pessoa, ou simplesmente mudado de ideias sobre nós por qualquer razão, bastava ter-me dito, uma frase, uma mensagem, qualquer coisa. Não saber é, de longe, a pior parte de tudo isto.
Voltei a Pattaya várias vezes desde então, sem qualquer intenção concreta além de me divertir, a última em junho passado, e conheci uma rapariga nova bastante simpática com quem passei um bom bocado sem complicações nem promessas de qualquer tipo. Mas o assunto da Lek continuava a pesar-me durante toda a viagem, ao fundo, como uma pergunta sem resposta que surgia nos momentos mais tolos, na rua, num restaurante, sem vir a propósito. Cheguei mesmo a pensar em apanhar um autocarro até Prakhon Chai e procurá-la pessoalmente para lhe pedir explicações cara a cara, aparecer à porta dela sem avisar. Mas pensei melhor depois de tantos anos já passados, todo aquele tempo entretanto. Não fazia qualquer sentido reabrir uma coisa dessas do nada, para nenhum de nós dois, e muito menos aparecer sem avisar na vida que ela tivesse decidido construir.
Agora estou mesmo a virar a página, aos poucos, e a gostar de manter as coisas leves e sem complicações por agora, sem pressa para que se torne em algo mais sério do que isso, seja qual for o rumo que isto leve a seguir.