O Ryan queria construir uma vida em Pattaya. Acabou a dormir na rua e morreu de um enfarte em Inglaterra.
Em resumo
Um expatriado recorda o Ryan, um inglês perto dos 50 anos que abriu dois bares em Pattaya, perdeu as poupanças em ambos, acabou a dormir na rua, e morreu de um enfarte pouco depois de voltar a Inglaterra sem nada.
Quero contar a história de um tipo que conheci em Pattaya lá por 2014. Chamava-se Ryan, tinha uns 48 anos, e era do norte de Inglaterra, de uma zona perto de Newcastle.
Partilho isto porque é um lembrete de que a Tailândia consegue mastigar-nos e cuspir-nos sem qualquer consideração se as finanças não estiverem em ordem antes de se dar o salto, por muito bem que corram as coisas no início e por muito convencido que se esteja de que isso não vai acontecer connosco.
O Ryan já ia à Tailândia há anos, umas semanas de cada vez, voltando sempre a Inglaterra com a sensação de que a sua vida verdadeira estava noutro lado, antes de finalmente decidir tornar a mudança permanente. Como acontece a muitos homens nesta mesma situação, conheceu uma rapariga em Pattaya, chamava-se Nam, apaixonou-se por ela com a intensidade de quem passou muito tempo sozinho, e abriram um bar juntos com as poupanças de uma vida inteira a trabalhar em fábricas e armazéns em Inglaterra.
Na cabeça dele o bar ia gerar rendimento suficiente para os dois viverem confortavelmente o resto dos dias. Nunca chegou a funcionar bem assim, nem de longe.
Todo o dinheiro que entrava voltava direto para o negócio, reparações, salários, licenças que era preciso renovar todos os anos, ou atravessava a rua para a família da Nam sob a forma de ajudas mensais que nunca pareciam acabar nem diminuir com o tempo, sempre uma emergência nova, um telhado para arranjar, uma mota avariada. Ao fim de uns anos as poupanças dele tinham-se esgotado por completo e o bar estava em nome dela, como é habitual segundo a lei tailandesa quando um estrangeiro monta um negócio destes, por isso quando a relação acabou saiu de lá sem absolutamente nada, nem sequer uma parte do negócio que ele próprio tinha construído com as suas mãos.
Quando o conheci era um tipo simpático, divertido, sempre a rir e a fazer de brincalhão do grupo entre os outros expatriados com quem costumávamos juntar-nos ao fim da tarde nos mesmos dois ou três bares. Contava histórias que faziam todo o bar chorar de riso, do tipo que se conta vezes sem conta porque resultam sempre, e pagava sempre a primeira rodada apesar de depois nunca ficar muito claro de onde vinha o dinheiro para a pagar.
Mas um dia confessou-me, já com umas cervejas a mais, que estava praticamente sem dinheiro e que a sua única esperança era uma herança que devia chegar de Inglaterra a qualquer momento. Apesar disso continuava a beber nos bares quase todos os dias da semana, coisa que na altura não fazia sentido nenhum vindo de alguém que dizia não ter um cêntimo.
Voltei ao Reino Unido por trabalho durante uns meses e regressei a Pattaya cerca de cinco meses depois. A herança não tinha chegado, e parecia cada vez menos provável por causa de disputas familiares sobre as quais preferia não entrar em detalhes.
O Ryan tinha agora uma nova namorada, uma rapariga chamada Bee que bebia e fumava bastante mais do que eu alguma vez tinha visto na Nam, e andava a pedir dinheiro emprestado tanto a expatriados como a tailandeses só para ir sobrevivendo semana a semana, pequenas quantias aqui e ali que se somavam sem que ele parecesse levar a conta. Apesar de tudo isto, falava em abrir outro bar, com os olhos a brilhar como se nada daquilo anterior tivesse mesmo acontecido, convencido de que desta vez seria diferente porque a renda do novo espaço era barata e a Bee, segundo ele, tinha bastante experiência a trabalhar em bares da zona.
A noite de abertura parecia promissora, para ser sincero, balões por todo o lado, comida grátis para os primeiros a chegar, um DJ contratado para a ocasião, bastante gente a entrar e sair até tarde. Nessa noite cheguei mesmo a pensar que talvez desta vez corresse bem. Depois disso tudo foi apagando aos poucos, semana após semana, até o local ficar praticamente vazio durante a semana. Eu passava por lá de vez em quando para o apoiar com a minha presença e uma bebida ou outra, e as raparigas que lá trabalhavam ficavam de pé, aborrecidas, junto ao balcão enquanto o Ryan, já bêbado a meio da tarde, lhes gritava ordens que ninguém seguia.
Voltei para casa outra vez e regressei uns seis meses depois, esperando encontrá-lo melhor, talvez com o segundo bar ainda a aguentar-se de alguma forma. O bar estava fechado havia algum tempo, o letreiro ainda lá mas as luzes apagadas e um cadeado enferrujado na porta. O Ryan andava de bar em bar à espera que alguém lhe pagasse uma cerveja, sentando-se ao balcão sem pedir nada até algum conhecido se compadecer dele. A roupa dele estava suja, a mesma camisa vários dias seguidos, cheirava mal, e devia dinheiro a praticamente toda a gente que conhecia na cidade, expatriados e tailandeses, pequenas quantias espalhadas por tanta gente que já ninguém levava a conta certa.
Estava em situação irregular com o visto havia meses porque não tinha dinheiro para o renovar, e a cada dia que passava a multa acumulada crescia um pouco mais, coisa que a essa altura parecia já não o preocupar de todo. A Bee continuava por perto, fazendo de vez em quando o que tinha de fazer para conseguir dinheiro, enquanto os amigos do Ryan, incluindo eu próprio, olhávamos para o lado sabendo perfeitamente o que se passava mesmo à nossa frente.
Paguei-lhe umas cervejas nessa tarde e falei-lhe com franqueza, sem rodeios, olhando-o nos olhos: que voltasse para Inglaterra, que pedisse o subsídio de desemprego mesmo que isso doesse ao orgulho, que se recompusesse com calma durante uns meses, e que só voltasse quando tivesse um plano a sério no papel, não apenas uma esperança vaga.
Aterrorizava-o a ideia de voltar, via-se-lhe na cara só de mencionar o assunto. Vivia o estilo de vida tailandês havia anos, o calor, a praia, a cerveja barata o ano inteiro, e não conseguia encarar a ideia de regressar a uma Inglaterra fria e cinzenta com 50 anos recém-feitos e sem nada para mostrar por todo aquele tempo fora, nem casa, nem poupanças, nem família própria à sua espera. Continuava agarrado à esperança de que algo se resolvesse sozinho, sem que ele tivesse de fazer o esforço de mudar mesmo alguma coisa.
Com o tempo a situação chegou a um ponto em que dormia na rua, nalgum soi mais isolado ou debaixo do toldo de uma loja fechada, e pedia comida a quem passasse, sem qualquer orgulho que ainda lhe restasse. Um grupo de locais e expatriados que o conheciam dos velhos tempos, gente que outrora tinha bebido de graça no bar dele, juntou-se para reunir dinheiro suficiente para cobrir a multa por overstay, já considerável ao fim de tanto tempo, e pagar-lhe um voo barato de volta a casa.
Já em Inglaterra trabalhou como taxista noturno, turnos longos pela cidade, tentando devolver o dinheiro a toda a gente aos poucos, umas quantas libras por mês a cada pessoa, e poupar o suficiente para voltar um dia à Tailândia com as coisas bem feitas desta vez, um plano a sério como lhe tinha pedido.
Nunca chegou a voltar. O Ryan sofreu um enfarte e morreu, sozinho, segundo alguém que ainda estava em contacto com a família dele e mo contou depois. Foi isso que me disseram, pelo menos, foi assim que ele partiu.
Penso nele de vez em quando, sobretudo quando vejo outro tipo a começar pelo mesmo caminho, com o mesmo sorriso fácil e as mesmas desculpas para não olhar de perto para as próprias contas. Gostava da Tailândia da mesma forma que acontece a muitos de nós, com uma intensidade que por vezes chegava a beirar a obsessão, e só queria construir uma vida por lá, nada mais do que isso, nada assim tão estranho nem tão ambicioso no fundo. Mas foi tomando má decisão atrás de má decisão, ano após ano, cada uma um pouco mais difícil de desfazer do que a anterior, e quando percebeu que já não havia saída fácil, já era tarde de mais para qualquer coisa que não fosse tentar sobreviver mais um dia.
A Tailândia é um lugar maravilhoso, as pessoas, a comida, o clima, o estilo de vida, tudo isso é completamente verdade e continuo a pensar assim depois de tudo o que aconteceu ao Ryan. Mas ponham as vossas finanças em ordem antes de dar o salto definitivo, com uma almofada financeira a sério e um plano para se algo correr mal. A história do Ryan é a prova, triste mas clara, do que pode acontecer quando não o fazemos.