Capa: Deu-me uma dose grátis de noodles na banca da mãe dela. O búfalo nunca esteve doente.

Deu-me uma dose grátis de noodles na banca da mãe dela. O búfalo nunca esteve doente.

Em resumo

Um britânico de 50 anos, recém-divorciado, conheceu a Nitia, professora de matemática em Khon Kaen que mantinha os homens à distância havia anos. Anos de FaceTime, visitas a contornar a COVID, e uma primeira filha depois, o casamento já não é uma possibilidade mas sim um dado adquirido.

Chamo-me Martin, sou britânico, e estava casado há 25 anos, já do lado errado dos 50, exatamente 50 recém-feitos, e enfrentava um divórcio amigável mas caríssimo no Reino Unido, daqueles sem gritos nem acusações mas com advogados envolvidos na mesma.

Quando a minha empresa me ofereceu uma temporada nos nossos escritórios de Singapura e Banguecoque, disse que sim quase sem pensar duas vezes. Uma mudança de ares paga pelo trabalho, e a oportunidade de arejar a cabeça depois de tudo aquilo.

Singapura foi bom. Banguecoque deixou-me completamente rendido desde o primeiro dia.

Em 2018 a equipa foi envolvida num projeto de renovação numa escola internacional em Khon Kaen. Dias longos, trabalho produtivo, uma cerveja ao fim da tarde de vez em quando, nada mais do que isso.

Não tinha qualquer interesse em conhecer ninguém. Já tinha ouvido as histórias do costume, formado os preconceitos habituais sobre o assunto, e dizia a mim mesmo que já era demasiado velho para esse tipo de complicações de qualquer forma.

Na segunda semana lá comecei a cruzar-me vezes sem conta com uma professora de matemática da escola que andava a ajudar a minha equipa a ter acesso às salas nos horários certos, coordenando com contínuos e diretores nem sempre muito cooperantes. Falava um tailandês lindíssimo com os alunos nos corredores e um inglês excelente comigo, sempre simpática de uma forma que não parecia forçada, nunca dava problemas com horários nem com mais nada.

Perguntei-lhe por recomendações de restaurantes perto da escola e ela mencionou, quase de passagem, que a família dela tinha uma banca de noodles num mercado de rua da zona, o negócio da mãe dela há anos. Um dia ou dois depois fui lá com alguns colegas da equipa, mais por curiosidade do que outra coisa, e ela estava lá depois das aulas a ajudar a mãe a servir, o cabelo preso e um avental que claramente não fazia parte do guarda-roupa habitual de professora. Deu-me uma dose grátis, sem que eu pedisse nem esperasse, insistindo com um sorriso quando tentei pagar na mesma.

Começámos a falar a sério nessa tarde. Chamava-se Nitia, 36 anos, 14 anos mais nova do que eu, nunca tinha casado. Um namorado anterior, norueguês, uma relação que tinha acabado cinco anos antes de nos conhecermos.

Tinha escolhido a matemática em vez de relações desde então, atirando-se de corpo e alma para a carreira de professora, e não tinha qualquer interesse em homens tailandeses, que descrevia sem rodeios como infiéis em série sem qualquer exceção digna de nota. Disse-me que os estrangeiros que vinham à Tailândia eram, na experiência dela, ou mochileiros de passagem ou turistas de duas semanas à procura exatamente daquilo que eu tinha passado a vida toda a evitar, e que eu tinha sido uma verdadeira surpresa para ela, sem me encaixar bem em nenhuma das duas categorias que já tinha assumidas.

Disse-lhe que era solteiro e perguntei se me deixaria convidá-la para jantar. Não disse que sim, não disse que não. Uma hora depois de voltar ao hotel, o meu WhatsApp tocou com uma mensagem dela.

Continuámos a escrever-nos depois de eu voltar a Banguecoque. Uma semana depois disse-me que gostaria de descer para me ver antes de eu voltar para Inglaterra, que tinha uma prima lá com quem podia ficar sem problema.

Mencionou que teria de pagar a outras professoras para lhe cobrirem as aulas, e que o voo não era barato. Preparei-me mentalmente para o que vinha a seguir. Não veio nada. Nenhum pedido, nenhuma história triste, absolutamente nada.

Esperou por mim na receção do hotel às 18h30 em ponto, nem um minuto atrasada, vestida na perfeição para a ocasião, deslumbrante de uma forma que me apanhou completamente desprevenido. Conhecia um sítio tailandês barato ali perto, que se revelou, para minha surpresa quando chegámos, ser o jantar de aniversário da família da prima dela, mesas juntas e um bolo caseiro à espera no final. Menos de 800 baht para os dois, gorjeta incluída. Comida excelente, conversa ótima do início ao fim sem qualquer silêncio incómodo pelo meio. A prima foi buscá-la às 23h em ponto e ela deu-me um beijo rápido na cara ao sair, nada mais.

Disse a mim mesmo, nessa mesma noite, para deixar as coisas por ali antes que fossem a mais. 14 anos mais velho do que ela, a dez mil quilómetros de distância no espaço de uma semana, um casamento mal terminado nas minhas costas, condenado de qualquer ângulo racional que se olhasse.

Não deixei, claro está. Ela voltou na noite seguinte com um pequeno saco de viagem que pousou junto à porta sem dizer nada sobre isso. Comemos comida de rua de bancas que ela conhecia muito melhor do que eu, passámos uma noite ótima juntos, falámos durante horas sem reparar por onde ia o tempo. Ficou também no dia seguinte, arranjei desculpas bastante fracas no trabalho para sair mais cedo do que o habitual, e passámos a tarde inteira junto à piscina do hotel, sem fazer grande coisa além de falar e rir.

A prima foi buscá-la de manhã e ela voltou para Khon Kaen. A partir daí continuámos por FaceTime e WhatsApp, mensagens constantes durante o dia e videochamadas quase todas as noites.

Visitei-a mais duas vezes durante essa temporada de trabalho, cada vez com menos desculpas profissionais necessárias e mais vontade sincera de a ver. A COVID complicou tudo bastante depois, quarentenas e papelada sem fim, mas conseguimos organizar uma visita em cada direção contornando as restrições como pudemos. Continuei a voltar através do programa Test and Go assim que algo parecido com a normalidade reabriu, passando tempo com ela e a família dela em Khon Kaen sempre que o trabalho permitia. Boa gente que nunca pediu nada durante todo este tempo, que só mostrou gratidão genuína pelas coisas mais pequenas, e que parece sinceramente feliz por ela estar feliz depois de anos a manter os homens à distância por escolha própria, não por acaso.

O búfalo nunca esteve doente, nem uma única vez em todos estes anos. As galinhas estão todas de perfeita saúde. A mãe dela não precisa de nenhuma operação, e nunca precisou. Nenhuma daquelas histórias que tinha ouvido contar a outros expatriados antes de vir para cá se repetiu comigo, nem de perto.

Nunca discutimos a sério. Nem uma única vez em todo este tempo, coisa que ainda me custa acreditar quando penso nisso com calma, depois de 25 anos de um casamento anterior com a sua quota normal de discussões e silêncios longos. Ela tem uma forma de ver o mundo, calma e prática ao mesmo tempo, que faz tudo parecer mais leve mesmo nos dias complicados. Quem me dera tê-la conhecido vinte anos antes, embora saiba perfeitamente que nenhum de nós estaria no ponto certo da vida na altura para que aquilo resultasse.

Está a tirar um curso de inglês avançado, a estudar à noite com uma dedicação que ainda me surpreende, para que as habilitações de professora dela possam um dia ser reconhecidas em Inglaterra, caso acabemos por nos mudar para lá. Entretanto vamos trabalhar remotamente a partir de Banguecoque, sem qualquer pressa para decidir nada em definitivo por agora. E tivemos a nossa primeira filha há pouco, a menina que sempre quis ter e que nunca chegou no meu primeiro casamento. A mãe dela, com todo o carinho do mundo mas sem qualquer ambiguidade também, deixou bastante claro que tornar tudo oficial não é de todo opcional a esta altura.

Tudo começou por nos cruzarmos ao acaso num corredor de escola em Khon Kaen, duas pessoas que nem sequer andavam à procura de nada parecido com isto, ambas bastante convencidas na altura de que tinham acabado de vez com este tipo de complicação. Nunca fui mais feliz em toda a minha vida, longe disso, e hoje não passa um dia sem que dê valor a tudo isto.

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