Soava exatamente ao golpe que ando a ouvir na Tailândia há vinte e cinco anos. Em vez de mandar o dinheiro, apanhei um voo.
Em resumo
Um austríaco de 54 anos viajava sozinho para a Tailândia há anos quando conheceu a Aom, uma mulher grávida, sem qualquer expectativa entre os dois. Meses depois ela pediu-lhe 60.000 baht para o hospital da mãe. Em vez de mandar o dinheiro, voou até Kanchanaburi para verificar pessoalmente.
Tenho 54 anos, sou austríaco, e vou à Tailândia há uns vinte e cinco anos.
Fui pela primeira vez com a minha então mulher e o nosso filho pequeno, que mal andava. Passávamos três meses lá todos os invernos, fugindo do frio da Europa Central e, sem darmos muito por isso ao início, de bastante mais do que isso também. Apaixonei-me pelo país pelas pessoas e pela forma de viver, não pela vida noturna, coisa em que muita gente custa a acreditar quando lhes conto isto depois de vinte e cinco anos a ir para lá. Ainda me lembro da primeira vez que um vizinho nos convidou para comer sem nos conhecer de lado nenhum, só porque o nosso filho tinha começado a brincar com o dele na rua. Foi esse tipo de coisas que me prendeu, não as praias, nem os bares, nem nada daquilo que a maioria das pessoas cá em casa acha que leva homens da minha idade a irem sozinhos à Tailândia.
O meu casamento acabou anos depois, já com o meu filho adolescente, e continuei a ir sozinho, a princípio por hábito, depois porque já não sabia fazer outra coisa com os meus invernos. Experimentei aplicações de encontros quando outra relação que tinha começado cá também terminou, mas a maioria das mulheres com quem falava, ou queria algo completamente diferente, ou algo casual enquanto eu estivesse de passagem, o que é perfeitamente legítimo, só que não era o que eu procurava àquela altura da vida. Depois de mais uma conversa que não ia a lado nenhum, cheguei a estar bastante perto de desistir por completo e limitar-me a aproveitar a Tailândia sozinho, sem complicar mais nada.
Lembro-me especialmente de uma conversa dessa altura, com uma mulher que já na segunda mensagem me perguntava se viajava muito a trabalho e quanto ganhava, sem sequer saber o meu apelido. Não fui indelicado, simplesmente deixei de responder. Outra deixou claro logo ao terceiro encontro que queria algo sem compromisso enquanto eu estivesse de passagem, o que é perfeitamente compreensível, só que não era o que eu procurava àquela idade.
Cheguei a estar quase a apagar as aplicações de vez mais do que uma vez nesse ano. Há um limite de vezes que se consegue aguentar a mesma conversa inicial, as mesmas perguntas sobre quanto tempo ficava e se estava "mesmo" solteiro, antes de aquilo deixar de parecer namoro e passar a parecer uma entrevista de emprego para a qual ninguém me tinha avisado.
Foi nessa altura, numa dessas viagens em que já não procurava nada em particular, que conheci uma tailandesa grávida. Chamava-se Aom, trabalhava perto de onde eu estava hospedado, e começámos a passar tempo juntos quase todos os dias dessa viagem, sem que fosse nada sério ao início, nem sequer namoriscávamos muito. Simplesmente dávamo-nos bem e gostávamos da companhia um do outro sem pensar muito nisso, café de manhã ou apenas sentados a conversar enquanto ela descansava os pés inchados da gravidez.
Quando voltei à Tailândia no inverno seguinte, retomámos exatamente onde tínhamos deixado, como se não tivesse passado nenhum tempo entretanto.
Apresentou-me o filho recém-nascido, mostrou-me a aldeia dela perto de Kanchanaburi, levou-me a conhecer as amigas e parte da família, e nunca me pediu dinheiro. Éramos simplesmente bons amigos, e sinceramente nunca esperei que aquilo se tornasse noutra coisa. Sentávamo-nos à tarde em frente à casa dela enquanto o bebé dormia, a falar de tudo e de nada, da escola a que ele iria um dia, do meu trabalho na Áustria, de porque é que o meu casamento não tinha resultado, e essas tardes tornaram-se a parte da viagem que mais sentia falta quando voltava à Europa.
Depois de passar vários meses assim, voltei à Europa e continuámos a falar todos os dias pelo Line, bom dia, fotos do bebé a crescer, como tinha corrido o trabalho, uma foto do mercado ou da chuva a cair no telhado de zinco da casa dela. Nada dramático, apenas o tipo de contacto diário que nos faz perceber que alguém se tornou importante sem sabermos exatamente quando isso aconteceu, o tipo de coisa que nos apanha desprevenidos entre uma mensagem normal e a seguinte, sem qualquer aviso prévio. Os meus amigos na Áustria começaram a perguntar por ela antes de eu próprio ter percebido bem o que se passava entre nós, e responder-lhes obrigava-me a pensar nisso com mais atenção do que até então.
Cerca de nove meses depois, pediu-me ajuda pela primeira vez.
A mãe dela tinha sofrido um acidente grave e precisava de mais de 60.000 baht para o tratamento médico. Soava exatamente às histórias que ouvia há vinte e cinco anos na Tailândia, aquelas que qualquer estrangeiro que passe tempo suficiente por lá acaba por ouvir de um amigo, de um fórum de expatriados, de alguém encostado ao balcão de um bar. Por isso, em vez de transferir o dinheiro logo nessa noite, o que provavelmente teria feito uns anos antes, reservei um voo para a Tailândia para ver aquilo com os meus próprios olhos.
Quando lá cheguei, era tudo verdade. Fui com ela diretamente ao hospital desde o aeroporto, ainda a arrastar a mala, e conheci a mãe dela na cama, um braço engessado e a cara ainda inchada da queda. Mal falava inglês, mas segurou-me a mão por um momento e disse algo que a Aom só traduziu muito mais tarde, já no táxi de regresso: que lamentava que a nossa primeira viagem juntos tivesse de ser para a conhecer assim. Vi que já tinham vendido o carro da família para ajudar a pagar as primeiras contas, e percebi que a Aom não me tinha mentido em nada. Não havia história elaborada nenhuma, nenhuma urgência fabricada, só uma família sem grandes recursos a tentar sair de uma situação que lhes tinha fugido completamente das mãos, o tipo de azar vulgar que nada tem a ver com alguém a tentar aproveitar-se de um estrangeiro.
Dei-lhes 5.000 euros para ajudar com os custos médicos imediatos, e mais tarde, já com a mãe em casa a recuperar, outros 5.000 para que pudesse comprar um carro modesto e voltar a andar sem depender de ninguém.
Isso foi há quatro anos, e desde então temos estado juntos. Tornei-me parte da família dela, e ela tornou-se parte da minha. O meu filho, já adulto, adora ir à Tailândia e dá-se lindamente com todos, sobretudo com o filho da Aom, que anda atrás dele feito uma sombra sempre que ambos coincidem por lá.
Também investi cerca de 15.000 euros a melhorar a casa da família, para que todos tenhamos um sítio confortável onde ficar quando estamos na Tailândia. Primeiro fizemos o telhado, porque pingava sempre que chovia com força, depois a casa de banho, depois a cozinha, aos poucos, sem pressa, uma coisa nova a cada viagem em vez de tentar fazer tudo de uma vez. Da última vez que lá estive, a mãe da Aom mostrou-me orgulhosa a ventoinha de teto nova da sala como se fosse a coisa mais importante que tinha acontecido naquele ano, e talvez para ela fosse mesmo.
Os domingos em que estou lá tornaram-se quase numa tradição própria. Junta-se a família toda, tios que chegam de mota da aldeia ao lado, primos da Aom que já me chamam pelo nome sem hesitar, e comemos todos sentados no chão do terraço que ajudei a cobrir há uns anos. O meu filho senta-se sempre ao lado do rapaz, que já tem idade para perseguir galinhas pelo quintal e para tentar ensinar palavras em tailandês ao meu filho, que depois as repete todas trocadas, para diversão de todos os presentes.
Nunca fui muito de falar da família tailandesa como um conceito especial, do tipo que se vê em fóruns de expatriados cheios de teorias sobre como tudo funciona por lá. Para mim foi sempre algo bem mais simples: pessoas que nos tratam bem porque gostam de nós, não porque queiram alguma coisa de nós nem nós delas. Fui só mais um farang durante anos na Tailândia, dos que vão e vêm sem deixar grande marca. Com a família da Aom deixei de me sentir assim, quase sem dar por isso.
As pessoas provavelmente vão dizer que tive sorte, e se calhar tive. Há tantas histórias que acabam ao contrário que seria ridículo fingir que também não pensei nisso, sobretudo durante o voo até ao hospital, com a cabeça a rever todos os cenários possíveis antes de aterrar. Mas conhecer a Aom mudou-me a vida por completo. Encontrei uma família que já não esperava encontrar aos cinquenta e tal anos, numa aldeia perto de Kanchanaburi onde fui parar quase por acaso, e sinceramente nunca fui mais feliz do que sou agora, numa idade em que já tinha deixado de esperar que algo assim ainda pudesse acontecer-me. O que quer que venha a seguir, tenho quase a certeza de que vou passá-lo naquele terraço perto de Kanchanaburi, com a ventoinha a rodar e algum primo a chegar de mota mesmo a tempo.