Capa: Cheguei a Banguecoque convicto de que seria eu a ajudá-la. Enganei-me.

Cheguei a Banguecoque convicto de que seria eu a ajudá-la. Enganei-me.

Em resumo

Um britânico chegou a Banguecoque com todos os preconceitos sobre tailandesas intactos. Encontrou uma mulher que não precisava que a salvassem.

Tenho 45 anos. Ela tem 31.

E o que mais surpreende as pessoas não é a diferença de idades.

O que as surpreende é que ela trabalha mais do que eu. Sempre. Sem exceção. Com uma constância que me é difícil explicar a alguém que não a conheça.

Chamo-me James. Sou de Manchester. Trabalho em logística internacional, o que na prática significa que passo demasiado tempo em aeroportos e em videochamadas com pessoas em fusos horários impossíveis. Vim a Banguecoque pela primeira vez há três anos para uma conferência de quatro dias. Fiquei três semanas. E voltei seis meses depois para ficar indefinidamente.

Não vou fingir que cheguei sem preconceitos. Cheguei com todos os que um britânico de quarenta e tal anos carrega depois de ter visto demasiados documentários e lido demasiados comentários em fóruns de expatriados. Pensava que sabia o que pensava sobre as relações entre ocidentais e tailandesas. Acreditava que sabia, pelo menos.

Conheci a Ploy numa situação completamente banal: na fila de um supermercado em Sukhumvit. Eu tentava perceber a diferença entre dois tipos de arroz. Ela explicou-me em inglês impecável qual era o de que precisava e porquê. Trocámos números porque lhe perguntei se me podia recomendar um restaurante local que não fosse uma armadilha para turistas.

Foi isso. Sem drama. Sem destino cinematográfico. Um homem confuso à frente de dois sacos de arroz e uma mulher com pressa que teve a amabilidade de o ajudar.

---

A primeira coisa que aprendi sobre a Ploy foi que tinha muito pouco tempo livre.

Trabalhava seis dias por semana numa empresa de contabilidade no centro de Banguecoque. Às sextas-feiras à noite dava explicações de matemática a dois alunos do secundário por videochamada. Aos domingos visitava a mãe em Nonthaburi, a quarenta minutos de metro, e aproveitava a viagem para estudar para um certificado de contabilidade avançada que estava a tentar obter há dois anos.

Enviava dinheiro para casa todos os meses. Uma parte para a mãe. Outra para as despesas escolares do irmão mais novo, que estudava engenharia em Chiang Mai. Vivia num apartamento pequeno em On Nut que partilhava com uma colega de trabalho para reduzir custos.

Quando me contou tudo isto na nossa terceira ou quarta conversa, a minha primeira reação interior foi algo próximo do desconforto. Não pelo que me estava a dizer, mas pelo que revelava sobre as minhas próprias suposições anteriores. Tinha chegado a Banguecoque com a ideia — nunca totalmente consciente mas estava lá — de que se conhecesse uma mulher tailandesa e as coisas corressem bem, provavelmente seria eu a proporcionar estabilidade económica. O que ajudaria. O que resolveria problemas.

A Ploy não precisava que ninguém lhe resolvesse nada. Estava a resolvê-los sozinha há anos.

---

Um dia, algumas semanas depois de termos começado a encontrar-nos regularmente, cheguei ao apartamento dela de mau humor. O trânsito de Banguecoque tinha estado particularmente brutal nessa tarde, tinha perdido uma chamada importante e o calor deixara-me esgotado. Queixei-me de tudo isso com bastante liberdade enquanto esperava que ela terminasse de preparar o jantar.

A Ploy ouviu-me. Não disse nada durante um momento. Depois perguntou-me, com uma calma que não era fria mas simplesmente tranquila, se queria que me falasse da semana dela.

Disse que sim.

Contou-me que tinha cometido um erro num relatório que lhe custara duas horas extra na segunda-feira. Que na terça-feira a mãe tinha tido uma quebra de tensão e ela tinha tido de sair do trabalho a meio da manhã para a levar ao médico, tempo que teve de recuperar ficando até às nove da noite. Que na quarta-feira um dos seus alunos de matemática tinha reprovado num exame e ela sentia-se parcialmente responsável. Que na quinta-feira tinha recebido a fatura dos livros do irmão e era mais cara do que esperava.

Contou-me tudo isso sem dramatismo. Sem procurar compaixão. Como se me estivesse a ler um boletim meteorológico.

Depois perguntou o que íamos jantar.

Fiquei calado um momento.

Perguntei-lhe por que não tirava um dia de folga de vez em quando.

Riu-se. E disse-me algo que trago comigo desde então:

"Porque as contas não tiram dias de folga."

Não era uma queixa. Era simplesmente a descrição de como funciona o mundo dela. Um mundo em que o descanso é um luxo planeado com semanas de antecedência, não algo que se tira porque se está cansado do trânsito e do calor.

---

Há muita gente com opiniões sobre relações como a nossa.

Sei porque as ouvi. Alguns são diretos: "Tens a certeza de que ela não está contigo pelo dinheiro?" Outros são mais subtis mas a mensagem é a mesma. A suposição implícita é que numa relação entre um ocidental de meia-idade e uma mulher tailandesa mais nova, a dinâmica de poder é óbvia e a motivação dela é financeira.

Percebo. O estereótipo existe porque há situações que o alimentam. Não vou fingir o contrário.

Mas o estereótipo não descreve a Ploy.

A Ploy ganha o seu próprio dinheiro. Gere as suas próprias finanças com uma precisão que envergonha a minha. Tem um plano a cinco anos que inclui comprar um apartamento, terminar o certificado de contabilidade, e eventualmente montar a sua própria consultoria. Quando saímos para jantar, insiste em dividir a conta. Quando lhe ofereci ajuda financeira para as despesas do irmão, recusou com uma amabilidade que não admite discussão.

Não precisa de mim para sobreviver. Está comigo por razões que não têm nada a ver com o meu passaporte nem com a minha conta bancária.

Essa distinção importa.

---

O que aprendi em Banguecoque não foi sobre relações interculturais nem diferenças de idades.

O que aprendi foi sobre os meus próprios preconceitos e a velocidade com que os tinha construído sem os questionar.

Cheguei à Tailândia com a narrativa já escrita. O expatriado que ajuda. A mulher local que precisa. Uma história com papéis atribuídos antecipadamente.

A realidade era mais complexa e infinitamente mais interessante.

A pessoa que na minha cabeça precisava de ajuda revelou-se a mais organizada, a mais disciplinada e a mais clarividente das duas. E a pessoa que assumia que iria proporcionar estabilidade revelou-se aquela que precisava de aprender a gerir melhor o seu tempo, as suas prioridades, e a sua tendência para se queixar do trânsito quando outros têm problemas reais.

Continuamos juntos. Dois anos. Vivemos em Banguecoque num apartamento que arrendamos entre os dois. A Ploy obteve o certificado de contabilidade no ano passado. O irmão terminou o primeiro ano de engenharia com boas notas.

Continuo na logística. E aprendi a não me queixar do trânsito quando ela está por perto.

---

Se estás a ler isto e tens uma opinião formada sobre relações como a nossa, não te peço que a mudes.

Só te peço que consideres uma possibilidade: que a pessoa sobre quem tens uma opinião seja alguém que não conheces. Que por detrás da foto que imaginas haja uma história que não se encaixa na narrativa que já tinhas preparada.

Às vezes a pessoa que toda a gente assume que precisa de ser salva é a pessoa mais forte da sala.

No meu caso, sem qualquer dúvida, é ela.

Continuar a ler

Histórias relacionadas