Capa: Tinha 70 anos e a mulher tinha morrido. A filha reservou-lhe um voo para a Tailândia.

Tinha 70 anos e a mulher tinha morrido. A filha reservou-lhe um voo para a Tailândia.

Em resumo

Aos 70 anos ficou viúvo depois de quarenta e três anos de casamento. A filha reservou-lhe um voo para Koh Samui que lhe devolveu algo que julgava perdido.

Tinha 70 anos. A mulher tinha morrido quatro anos antes.

Quarenta e três anos juntos. E de repente uma casa demasiado grande, demasiado silenciosa, que ainda cheirava a ela nos sítios onde ninguém limpa porque ninguém quer apagar o que fica.

Chamava-se Antonio. Reformado. Tinha passado trinta e oito anos a trabalhar numa empresa de exportação em Valência. Era um homem ordenado, de hábitos fixos, que sabia exactamente como funcionava cada coisa na sua vida. Excepto isto. Isto não sabia como funcionava.

O primeiro ano passou-o bem, ou assim pensava. As visitas dos filhos, a rotina do bairro, o café do costume com os amigos do costume. Uma vida que ainda se parecia com uma vida mesmo que já não o fosse de todo.

O segundo ano foi mais difícil. Os filhos visitaram menos porque os filhos têm as suas próprias vidas e é assim que deve ser. Os amigos do costume começaram a falar de doenças e de mortes e de quanto se envelhece. E Antonio percebeu que andava meses sem dizer nada que importasse numa conversa.

No terceiro ano a filha mais velha, que vivia em Madrid e que tinha herdado da mãe o hábito de resolver os problemas antes de se tornarem problemas, comprou-lhe um voo para Koh Samui.

Ele disse que não era necessário.

Ela disse que era.

Tinha razão.

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Chegou ao resort numa quarta-feira à tarde, com uma mala demasiado grande para duas semanas e sem nenhum plano concreto além de não pensar demasiado.

O resort era pequeno. Doze quartos, uma piscina virada para o mar, uma esplanada com cadeiras de madeira onde as pessoas liam ou olhavam para o horizonte sem precisar de dar mais explicações. O tipo de sítio que não tenta impressionar porque sabe que não é necessário.

A directora do resort saiu a recebê-lo quando chegou.

Chamava-se Malee. Quarenta e oito anos. Tailandesa. Tinha uma daquelas presenças que não se anunciam mas que se notam desde o primeiro momento, como quando se entra numa divisão com a temperatura certa e só então se percebe que se tinha sentido falta.

Explicou-lhe o resort num espanhol surpreendente. Não perfeito, mas mais do que suficiente. Tinha vivido dois anos em Barcelona quando era jovem, a trabalhar na hotelaria. Ficou-lhe o sotaque e uma certa forma de gesticular com as mãos que não era tailandesa nem espanhola mas algo seu.

Antonio não se lembrava da última vez que alguém lhe tinha explicado algo com tanto cuidado.

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Começaram a falar na terça-feira seguinte ao pequeno-almoço.

Não foi nada de especial. Antonio perguntou por uma excursão à parte sul da ilha. Malee recomendou-lhe dois sítios e explicou qual era melhor a que hora do dia e porquê. Continuaram a falar. A sala de refeições foi esvaziando à volta deles.

O que Antonio notou, sem conseguir explicar exactamente, foi que Malee o ouvia de uma forma que há muito tempo ninguém o ouvia. Não com educação, não com a atenção a meias de quem espera que acabes para poder falar. Com uma presença real, como se o que dizia fosse exactamente o que ela queria ouvir.

Isso é mais raro do que parece.

Continuaram a falar durante dias. Excursões que se tornavam jantares. Jantares que se tornavam passeios pela orla quando o calor da tarde cedia. Conversas que começavam na ilha e acabavam em Valência, ou em Banguecoque, ou em sítio nenhum em particular.

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Malee também tinha perdido coisas.

Um casamento que não tinha funcionado. Um restaurante que tivera de fechar durante a pandemia. Uma mãe de quem cuidara sozinha nos últimos anos de vida.

Contava-o sem dramatismo, com a mesma naturalidade com que falava das marés ou do tempo. Antonio ouviu-a e percebeu algo que andava a tentar perceber há muito: que a dor não desaparece, mas que há pessoas que aprendem a carregá-la de uma forma que não as impede de estar presentes. Que isso não é resignação. Que isso é, de facto, uma forma muito concreta de coragem.

Uma noite Antonio não conseguia dormir.

Era uma daquelas noites em que a cabeça não para e o silêncio do quarto fica demasiado parecido com o silêncio da casa de Valência. Levantou-se e foi para a esplanada.

Malee estava lá. Não era estranho, às vezes ficava depois do turno quando o resort estava sossegado. Sentou-se ao lado dele sem dizer nada. Sem perguntar o que se passava. Sem oferecer consolo nem conselho.

Estava simplesmente lá.

Depois de um bocado, sem o olhar, disse em voz baixa:

"Há noites em que o mar ajuda."

Antonio não respondeu. Não era preciso responder.

Mas algo nele assentou de uma forma que não tinha conseguido assentar em quatro anos.

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Há 22 anos entre eles.

As pessoas têm opiniões sobre isso. Antonio sabe porque o filho, advogado em Sevilha que tem o hábito familiar de dizer as coisas directamente, lho disse sem rodeios a primeira vez que Antonio lho contou ao telefone.

Disse que ficava contente que Antonio estivesse bem mas que tivesse cuidado. Que era mais velho. Que estava vulnerável. Que havia certo tipo de mulheres em certo tipo de sítios que sabiam muito bem como tratar homens sozinhos de certa idade.

Antonio ouviu-o.

Depois disse-lhe que a Malee dirigia aquele resort há onze anos. Que tinha dois filhos a estudar em Banguecoque pelos seus próprios meios. Que quando Antonio tinha tentado convidá-la para jantar fora, ela insistira em pagar a sua parte. Que nunca tinha pedido nada que Antonio não tivesse oferecido primeiro.

O filho não disse mais nada.

Dois meses depois veio visitá-lo com a mulher. No aeroporto à saída, disse a Antonio: "Pai, tens bom aspeto. A sério."

Não acrescentou mais nada. Não foi preciso.

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Passaram oito meses desde que Antonio chegou a Koh Samui.

Alugou uma casa pequena a dez minutos do resort. Uma esplanada com vista para o mar, uma cozinha onde Malee lhe está a ensinar a cozinhar pratos tailandeses que ele prepara com mais entusiasmo do que jeito, um jardim pequeno que lhe lembra vagamente o de Valência embora não se pareça em nada.

Fala com a filha todos os domingos por videochamada. Ela pergunta sempre pela Malee. Pergunta como ela está, se os dois estão bem, se precisam de alguma coisa. Como se a Malee já fizesse parte da conversa familiar, o que de certa forma é verdade.

Não falaram de planos para o futuro. Não porque não queiram mas porque os dois sabem, com a clareza que dá ter perdido coisas importantes, que os planos para o futuro importam menos do que os dias do presente.

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Há manhãs em que se sentam na praia e não dizem nada.

Não porque não tenham nada para se dizer. Mas porque há um tipo de companhia que não precisa de palavras para ser companhia. Isso só se percebe quando se tiveram conversas suficientes na vida para distinguir as que acrescentam algo das que simplesmente preenchem o silêncio.

Antonio veio para Koh Samui para se lembrar porque se levantava de manhã.

Agora sabe.

E isso, aos setenta anos, quatro anos depois de ter perdido a pessoa com quem se tinha construído tudo o que veio antes, é exactamente suficiente.

Mais do que suficiente.

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