Capa: Em Phuket, a irmã mais nova da minha namorada me perguntou por que a irmã dela me encontrou primeiro

Em Phuket, a irmã mais nova da minha namorada me perguntou por que a irmã dela me encontrou primeiro

Em resumo

Ryan, americano de 38 anos, mora há quase um ano em Phuket com a namorada tailandesa quando a irmã mais nova dela faz uma pergunta que o deixa sem palavras: por que a irmã dela o encontrou primeiro. Por trás da pergunta há algo que ele nunca esperava descobrir sobre essa família.

Tenho 38 anos. Sou americano. E moro há quase um ano em Phuket com minha namorada tailandesa.

Até a semana passada, a vida era completamente normal.

Mercados de fim de semana. Passeios aleatórios para comer algo que nenhum de nós dois sabia pronunciar direito. Filmes no sofá aos domingos à tarde. Nada dramático. Nada que merecesse ser contado.

Fon — é assim que ela se chama — trabalha num hotel perto de Kata. Eu trabalho remoto para uma empresa no Texas. Nos conhecemos há dois anos, numa viagem que eu achava que ia durar três semanas e que acabou mudando minha vida inteira. Entre nós dois, construímos uma rotina que, sem percebermos direito, virou um lar.

Os primeiros meses em Phuket foram um aprendizado constante. Aprendi a pedir comida sem apontar pro cardápio como turista perdido. Aprendi que "sabai sabai" não é só uma frase, é quase um jeito de viver. Aprendi, principalmente, que ser o namorado estrangeiro de alguém na Tailândia significa entrar numa rede de primos, tias e vizinhos que te avaliam em silêncio por meses antes de te aceitar de verdade. Achei que já tinha passado nesse teste. Achei que, depois de um ano, já fazia parte da família.

Na semana passada, a irmã mais nova dela, Kwan, veio nos visitar. Tem 24 anos e mora em Surat Thani, a algumas horas daqui de ônibus. Foi a primeira vez que ela ficou mais de uma noite com a gente.

No começo, tudo foi exatamente como eu esperava. Kwan é divertida, fala rápido, ri alto, e faz aquele tipo de piada sobre mim que só alguém da família tem liberdade pra fazer. Nós três sentamos na sala naquela tarde, comendo manga com sal e pimenta, conversando sobre nada em particular. Sobre a comida de Bangkok. Sobre um garoto de quem Kwan gostava e que não respondia às mensagens dela. Sobre se eu algum dia ia aprender a falar o nome dela direito.

Em algum momento o telefone da Fon tocou. A mãe dela, provavelmente, porque ela revirou os olhos antes de atender e foi para o quarto falar em paz.

E ali ficamos eu e Kwan, sozinhos na sala.

Ela parou de sorrir por um segundo. Só um segundo. Mas eu percebi.

"Posso te perguntar uma coisa?", ela disse.

"Pode", respondi, ainda mastigando manga.

Ela sorriu de novo, mas de um jeito diferente.

"Por que minha irmã te encontrou primeiro?"

Eu ri. Achei que fosse brincadeira, uma daquelas frases que irmãs mais novas soltam pra provocar. Esperei a piada continuar.

Não veio nenhuma continuação.

Olhei pra ela de novo. Ela não estava brincando.

Por alguns segundos, eu realmente não soube o que dizer. A gente se prepara pra várias conversas desconfortáveis quando começa um relacionamento em outro país. Te avisam sobre perguntas de dinheiro, sobre o Sin Sod, sobre se você pretende casar, sobre se você é do tipo que fica ou do tipo que vai embora quando enjoa. Com o tempo, a gente se acostuma com isso.

Com isso, não.

Tentei rir de novo, meio brincadeira, meio nervoso. "Não sei, você tem que perguntar pra ela." Kwan deu de ombros e olhou pela janela, como se já estivesse se arrependendo de ter falado.

Fon voltou cinco minutos depois e a conversa continuou como se nada tivesse acontecido. Mas eu já não estava totalmente ali. Continuei sorrindo, continuei participando, mas uma parte de mim passou o resto da tarde remoendo aquela frase.

Nos dias seguintes tentei não dar muita importância a isso. Contei pra Fon, meio de brincadeira, o que a irmã dela tinha dito. Fon revirou os olhos de novo — parece ser sua reação padrão quando o assunto é Kwan — e disse que a irmã sempre foi "aquela que fala o que pensa antes de pensar direito". Que eu não levasse pro lado pessoal.

Quase acreditei nela.

No sábado seguinte fomos os três ao mercado noturno de Chalong, e reparei em algo que não tinha notado antes. Kwan ficava observando os casais. Todos eles. O casal tailandês vendendo frutas. O homem mais velho de mãos dadas com uma mulher mais jovem na fila do pad thai. A gente, quando caminhávamos um passo à frente dela.

Não exatamente com inveja. Mais como um cálculo silencioso, de alguém medindo uma distância que ainda não conseguia nomear.

Naquela noite, já em casa, enquanto Fon tomava banho, Kwan sentou comigo na varanda. Sem eu pedir nada, ela começou a falar.

Contou que tinha tido dois relacionamentos nos últimos três anos, os dois com homens da cidade dela, e os dois tinham terminado do mesmo jeito: eles somiam por um tempo, voltavam, prometiam mudar, e sumiam de novo. Contou que a mãe dela comparava, sem nunca dizer em voz alta, a vida das duas irmãs. Que nos jantares de família havia uma história oficial que ninguém falava mas que todo mundo sabia: Fon tinha encontrado estabilidade, alguém que chegava em casa todo dia na mesma hora, alguém presente. E Kwan, segundo essa história não dita, ainda não tinha encontrado nada parecido.

"Não é que eu queira o que ela tem", disse, olhando pro jardim. "É que às vezes eu quero saber se alguém assim existe pra mim também. Ou se ela só teve sorte e eu não."

Falei a única coisa honesta que me veio à cabeça: que não tinha sido sorte, e sim o momento certo, estar no lugar certo na hora certa, e que eu e Fon tivemos que trabalhar bastante, os dois, pra que desse certo. Que não era uma loteria nem um prêmio que umas ganham e outras não. Que provavelmente ela também ia encontrar, mas que se comparar o tempo todo com a irmã só ia fazer ela se sentir pior.

Não sei se o que eu disse ajudou em alguma coisa. Ela ficou calada um tempo, olhando as luzes do jardim, e depois só disse "obrigada por não rir de mim" e entrou em casa.

Nunca contei pra Fon os detalhes dessa conversa. Senti que não era eu quem devia compartilhar aquilo.

Duas semanas depois jantamos os quatro juntos — Fon, Kwan, a mãe delas e eu — antes de Kwan voltar pra Surat Thani. Em certo momento, a mãe brincou dizendo que esperava que Kwan também encontrasse "um farang bom desses". Kwan sorriu, mas foi um sorriso diferente dos outros. Eu reconheci na hora.

Agora, quando nós três sentamos juntos, ainda escuto a mesma risada alta da Kwan, as mesmas piadas sobre meu sotaque. Mas não olho mais pra ela do mesmo jeito. Por trás daquela pergunta desconfortável que ela me fez naquela tarde não havia nenhuma intenção escondida em relação a mim. Havia uma irmã mais nova tentando entender por que a vida tinha distribuído as cartas de um jeito diferente pra pessoa que ela mais ama.

Ainda não sei o que teria acontecido se Fon não tivesse saído da sala naquele momento. Provavelmente nada. Kwan provavelmente só precisava dizer aquilo pra alguém de fora da família.

Mas naquela tarde, enquanto eu esperava uma resposta que não tinha, entendi algo sobre essa família que nenhum mercado de fim de semana ou jantar tinha me ensinado até então: que a pessoa que parece mais feliz, às vezes, é também a que carrega mais pressão sem dizer nada.

Agora, quando planejamos o fim de semana ou escolhemos um filme pro domingo, penso um pouco diferente. Não exatamente com culpa. Mais com a consciência de que essa vida tranquila que construímos, aquela que sempre me pareceu tão pouco extraordinária, é também, para outra pessoa dessa família, a medida silenciosa com que ela compara a própria vida. E que às vezes a pergunta mais desconfortável que alguém pode te fazer não busca te machucar. Busca, simplesmente, entender o próprio lugar no mundo.

Continuar a ler

Histórias relacionadas